sábado, 18 de janeiro de 2014

“OS SERES HUMANOS ME ASSOMBRAM”

É assim que a ‘Morte’, narradora da história de A menina que roubava livros conclui a narração. Nós, os humanos, somos mesmo assombrosos! Muitas vezes, nossas palavras e atitudes são incompreensíveis. Quem de nós já não ficou perplexo diante de certas ações? Às vezes nos perguntamos: “como é possível”? São momentos em que nos espantamos.

Confesso minha perplexidade diante dos feitos e desfeitos humanos. A leitura de A menina que roubava livros me fez, novamente, pensar sobre isso. Como é possível que um povo cuja cultura nos legou gênios como Goethe, Beethoven, Thomas Mann, Kant, Hegel, Karl Marx, Nietzsche, Schopenhauer, Heidegger e Max Weber, entre outros, tenha produzido o nazismo e figuras como Adolf Hitler? Como explicar que um dos povos mais cultos da Europa “civilizada” tenha aceitado e apoiado um dos regimes políticos mais bárbaros da história humana? Como compreender que o povo alemão, em sua maioria esmagadora, tenha legitimado e consentido, ativamente ou por omissão, atrocidades inimagináveis que até nos levam a descrer do ser humano?

Sim, “os seres humanos me assombram”. Esse assombro não diz respeito apenas à capacidade humana de barbarizar e banalizar o mal. Maravilho-me também diante das atitudes dos que desafiam o barbarismo dos que reduzem seres humanos à condição não-humana. E não me reporto aos atos heróicos, mas sim àquelas pequenas ações do cotidiano que, em situações completamente adversas, resgatam o que há de mais humano em cada um de nós.

Em A menina que roubava livros, esses gestos simples, porém contundentes, são praticados por personagens como os pais adotivos de Liesel, Rosa e Hans Hubermann. Eles acolhem o judeu Max e o protegem. Naquela época, ter um judeu no porão era correr um risco muito grande. Liesel, a menina que roubava livros, compartilha desse gesto de solidariedade. Seu amigo Rudy também pode ser incluído entre aqueles que arriscam a própria vida por um momento, uma atitude, que mostra a sobrevivência da humanidade em nós.

Claro, trata-se de ficção. Mas, provavelmente, indivíduos como Liesel, Rudy, Rosa e Hans Hubermann existiram naquela realidade. Ainda que sejam pouquíssimos, deve ter havido os que não compartilharam com o nazismo e a sua sanha assassina. Era muito difícil ficar contra a maioria, ser taxado de ‘amigo de judeus’ era desgraçar a própria vida e da família e ser punido. E sempre parece mais fácil ficar com a maioria.

É muito difícil ficar na oposição em contextos ditatoriais. Muitos pagaram com a vida pela audácia de desafiar o ditador e a sociedade que o sustentava. Mas nem me refiro à oposição política organizada. Personagens como Hans Hubermann me fazem pensar sobre o homem e a mulher comuns, mas que têm um senso de justiça que os fazem agir humanamente e assumir os riscos das suas atitudes. Todavia, o que me intriga é que a maioria, e especialmente aqueles diretamente envolvidos nas ações atrozes contra os judeus e outros segmentos da sociedade alemã, também eram humanos. Como explicar que tenham seguido a ideologia nazista com tamanha veemência?

A leitura de A menina que roubava livros pode ser uma bela e emocionante reflexão sobre os paradoxos do ser humano, a importância das palavras e a afirmação da esperança, ainda que a desesperança reine temporariamente.


Um dos aspectos que chama a atenção é o fato da narradora ser a ‘Morte’. Ninguém melhor do que ela para nos compreender, ainda que nos assombre. Ela está aqui neste momento que escrevo. Quase a sinto! Ela está nos lugares mais inesperados e talvez tenha que agradecê-la por não colocar em seus braços a alma de uma criança. Seu dia, como o meu, chegará! Felizmente não foi hoje!


ZUSAK, Markus. A menina que roubava livros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007 (480p.)


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